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Arquivo: Edição de 15-01-2009

Sociedade

João Vilagelim e amigos alugaram uma carrinha e suportaram todas as despesas
Recolheu 15 toneladas de tampas para ajudar doentes e deficientes carenciados

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Dona do terreno incorre no pagamento de multa por ter espalhado tampinhas sem licenciamento do Ministério do Ambiente. Campanha acaba com a entrega de cadeiras e material ainda este mês.

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É conhecido como o “homem das tampinhas”. João Vilagelim liderou uma equipa que recolheu mais de 15 toneladas de tampas de plástico para transformar em dinheiro para a compra de cadeiras de rodas e material ortopédico para doentes, pessoas portadoras de deficiência ou com problemas de mobilidade. Num terreno emprestado na Lagoa das Bruxas, em Samora Correia, João tem espalhado mais de duas toneladas de tampas. Num celeiro ao lado está mais de uma tonelada acondicionada em sacos.

Com a ajuda de Celeste Bento escolhe minuciosamente antes de as colocar nos sacos de grande dimensão que serão transportados para o aterro intermunicipal da Resitejo em Carregueira, Chamusca. Prepara-se o último carregamento depois da entrega de mais de 15 toneladas de tampas de plástico em três anos. Material que foi transformado em cadeiras de rodas, camas articuladas, almofadas especiais e material ortopédico para doentes e deficientes carenciados. “Não conhecemos a maior parte dos beneficiários, mas o importante é ajudar quem precisa”, refere.

Viciado em voluntariado, João tem abraçado várias causas ao longo da vida e quando foi confrontado com a necessidade de recolher uma tonelada de tampas de plástico para trocar por uma cadeira de rodas para uma senhora de Muge, Salvaterra de Magos, não hesitou. Estávamos em Novembro de 2005 e o primeiro protocolo envolveu a Sociedade Filarmónica União Samorense (SFUS) e a Associação de Solidariedade Social Tampa Amiga.

Com a ajuda dos amigos, Celeste Bento e Joaquim Correia lançaram a semente e a colheita não tardou. Em poucos meses juntaram centenas de quilos de tampas plásticas na sede da SFUS em Samora Correia. A colectividade disponibilizou a carrinha e o gasóleo para as deslocações a vários pontos da região onde dezenas de pessoas recolhiam tampinhas com o mesmo objectivo. “Foi um efeito de bola de neve. Nós já não conseguíamos chegar a todo o lado. Houve uma resposta muito solidária”, explica o ‘senhor tampinhas’. João, Celeste e Joaquim tiveram de procurar uma garagem onde seleccionavam as tampinhas antes de as colocar em sacos de grande dimensão.

O fenómeno das tampinhas ganha uma dimensão maior e o Governo Civil de Santarém entra em cena para fazer a gestão do processo. Os candidatos individuais e as instituições inscrevem-se e são estabelecidos critérios para a atribuição do material e equipamentos. Em dois anos foram recolhidas mais de 75 toneladas de tampinhas no distrito. João foi responsável por quase um quinto da colheita.

As tampas foram transformadas em quase 50 mil euros de cadeiras de rodas e equipamentos, mas não chegaram para todos. Na última entrega devem ser incluídas as cadeiras prometidas a Vânia Correia (Porto Alto), Mónica Silva (Benavente) e Damiana Paulino (Samora Correia), entre outros. João Sousa, adjunto do Governador Civil de Santarém, referiu que está a ser feito um esforço para chegar a todos os pedidos. As últimas encomendas de material já foram feitas e as entregas devem acontecer até ao final do mês.

João Vilagelim, Celeste Bento e Joaquim Correia são apenas alguns exemplos de pessoas que abraçaram esta campanha sem limites. João conta que, com a ajuda dos amigos, alugaram uma carrinha para recolher tampas num raio de 100 quilómetros, suportando os custos de aluguer, seguro e combustível durante um ano. Só o aluguer foram mais de 2.500 euros, depois houve um conjunto de despesas que preferem não somar. Ao dinheiro dispendido juntam-se centenas de horas dedicadas à causa. “Há pessoas que não acreditam que fazemos isto de borla e ainda nos caluniam. Mas neste processo nunca se recebe dinheiro”, explica, mostrando os documentos comprovativos de todas as entregas feitas na Resitejo.

Voluntária multada por ter tampas no seu terreno

Em Maio de 2008, uma brigada do Ministério do Ambiente visitou o terreno onde estão as tampinhas de plástico e elaborou um auto de notícia onde refere a existência das tampas e de cabos de telecomunicações sem licença dos serviços. Seguiu-se o processo de contra-ordenação que deverá culminar com o pagamento de uma coima entre 1.500 e 3.740 euros. “Foi uma denúncia de um vizinho, mas é injusto. Nunca pensei que tínhamos que ter licença para ter aqui as tampinhas. Trabalhamos para ajudar os outros e ainda somos multados”, conclui João Vilagelim. Os voluntários recusam pagar a coima e estão disponíveis para levar o caso até às últimas consequências.

Embalagens revertem para unidades de rastreio do cancro na mama

A campanha de recolha de tampinhas termina, mas há novos motivos para seleccionar os resíduos. Ao colocar as embalagens de plástico, metal, vidro, cartão e papel no ecoponto está a contribuir para a criação de duas unidades móveis de rastreio do cancro na mama que vão permitir avaliar 20 mil mulheres por ano e contribuir para a redução da taxa de mortalidade causada pela doença.

Por cada tonelada de embalagens recolhida, a sociedade Ponto Verde vai pagar 1,5 euros. Os dois centros móveis custam 390 mil euros. A campanha da Associação Laço prevê também a recolha de donativos e angariação de fundos junto de empresas e beneméritos.

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