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Edição de 17-04-2014

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Arquivo: Edição de 29-09-2011

SECÇÃO: Entrevista

Maria Teresa Dias foi directora do Colégio Madre Andaluz e é uma mulher de convicções fortes
foto“Aos quatro anos já queria ser freira”

A última directora do Colégio Madre Andaluz chegou a Santarém aos 12 anos com uma intenção firme: deixar a escola e ser irmã da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima. Atingiu o objectivo, mas pelo meio foi estimulada a continuar os estudos acabando por se licenciar em Biologia. Foi freira e professora ao mesmo tempo e nunca usou hábito nem viveu em clausura.
Dentro do edifício da Fundação Luiza Andaluz ainda se encontra a roda onde antigamente colocavam as crianças abandonadas. Hoje ainda recebem muitas crianças?
Albergamos 30 meninas dos três aos 18 anos, que é o número máximo de crianças que podemos ter. Actualmente os processos passam pela Segurança Social, que depois encaminha as crianças e jovens para a nossa Fundação. Já não são os familiares que vêm directamente entregar as meninas, como acontecia antigamente.
As razões pelas quais os pais entregam os filhos são as mesmas de há 50 anos?
Há meio século vinham para a Fundação Luiza Andaluz sobretudo crianças órfãs ou abandonadas. Hoje em dia, como existem mais burocracias, nós não temos tanto conhecimento das razões que levam à institucionalização das crianças. É a Segurança Social, o tribunal ou a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens que trata de todos os processos e solicita que venham para a nossa instituição.
Vive-se actualmente uma crise de valores na sociedade?
Claro que vive! Estamos num mundo a desbaratar-se onde há falta de valores, falta de formação e educação. Depois do 25 de Abril os alunos transitavam de ano escolar através de passagens administrativas, ou seja, não passavam porque sabiam mas porque tinha que ser.
Houve facilitismo no sistema de educação?
Muito. Estas pessoas que passaram através de passagens administrativas com que estudos é que ficaram? Isto tudo em cadeia vai dar uma geração de facilitismo, o que retira qualidade em tudo o que fazem.
A actual sociedade não está virada para Deus?
Também é verdade, mas considero que vai surgir uma nova sociedade que já se está a verificar. Não pelo estado social mas por convicções profundas. Quando vejo Fátima, por exemplo, impressiona-me grandemente.
Porquê?
A quantidade de pessoas que ali vão na época em que vivemos impressiona. Não é só nos dias 13. Existe uma grande afluência de gente até nos dias de semana.
Fátima também já é vista não só como um local de peregrinação mas também de turismo. Nem toda a gente irá lá só por uma questão de fé.
Mas há muita gente que vai a Fátima propositadamente para rezar, porque tem fé. Com certeza que o fazem por convicção e não por turismo.
Em épocas de crise as pessoas aproximam-se mais da igreja?
É natural. Não vejo isto com pessimismo porque as crises conduzem sempre a novas oportunidades, mas não é algo que aconteça de um momento para o outro. Demora muitos anos a mudar.
Como é que casou Deus com a Ciência?
São coisas diferentes. Lembro-me de quando estudava ter muitas dúvidas em relação ao pecado original. Faz parte dos seres vivos nascer, crescer, reproduzir e morrer. Eu pensava: ‘porque é que a morte é fruto do pecado original se é algo inerente aos seres vivos?’. Questionei um padre sobre o assunto mas como ele não me deu uma resposta satisfatória fui estudando e descobrindo tudo sozinha.
A mensagem da Igreja permanece actual?
A mensagem permanece actual, temos é que arranjar linguagens diferentes, conforme o tempo. Mas os valores são os mesmos.

“Hoje não se faz educação sexual mas sim perversão sexual”
A Igreja tem sido criticada, até dentro da própria Igreja, por ter grandes dificuldades em adaptar-se aos tempos modernos, nomeadamente quanto ao uso do preservativo.
Daqui a 200 anos as pessoas hão-de enojar-se daquilo que se passa hoje a nível da sexualidade, como nós nos enojamos hoje do tempo dos romanos.
Como assim?
Vejo isto à luz da biologia. Os dois instintos fundamentais são a conservação do indivíduo e a conservação da espécie. A conservação do indivíduo é através da alimentação e a conservação da espécie é através da reprodução. No tempo dos romanos, ao lado das salas dos banquetes, tinham vomitórios só pelo prazer de poder comer. Hoje agoniamo-nos com essa imagem. A sexualidade não está ainda integrada nem humanizada e dignificada nesse tempo.
O uso do preservativo é uma questão de saúde.
Porque se abusa da sexualidade. Hoje não se faz educação sexual mas sim perversão sexual.
Não é um bocado redutor considerar que a sexualidade só deve servir para fins reprodutivos? Não é comparar o Homem aos animais?
Mas todos os animais têm um período de cio. A igreja defenderá sempre o casamento. Enquanto que nos animais a reprodução é fruto do instinto, no homem há o amor. O filho deve ser, antes de mais, fruto do amor. O amor é que leva à união sexual. Um livro que li e pretendia fazer educação sexual para crianças dos 8 aos 12 anos falava basicamente em preservativo e pílula do dia seguinte. Por isso digo que não se faz educação sexual.
O celibato dos padres faz sentido?
O celibato surgiu de uma lei da Igreja. Não vejo que a Igreja, no futuro, não possa mudar mas esta lei teve, e tem, as suas razões de ser no seguimento radical de Jesus Cristo. Um homem casado tem a sua família e uma série de afazeres e não tem tempo para se dedicar totalmente à vida da Igreja.
Como é que lidou com o escândalo da pedofilia no seio da Igreja Católica?
Não é aceitável mas também considero que tudo o que diz respeito à igreja se banaliza de uma maneira incrível. Um padre que viveu nos Estados Unidos da América contou-me uma vez que, nesse país, se um padre faz uma festinha a uma criança é logo interpretado como pedofilia. Não encaro os casos de pedofilia com naturalidade mas muitos são casos empolados. Se se refere à Igreja Católica há logo um empolamento.
A sua congregação é conhecida por não utilizar hábito. Gosta dessa tradição?
Um dos motivos pelos quais sempre gostei muito da minha congregação foi por não usarmos hábito, além de podermos ter empregos públicos e privados. Podemos passar o dia fora de casa. No início era uma novidade, agora já há muitas congregações que não usam hábito. Acho que o facto de não usarmos hábito cria uma maior proximidade com as pessoas.


Uma irmã formada em Biologia
Maria Teresa Dias, 81 anos, é uma mulher de ideias firmes desde tenra idade. Aos 4 anos já dizia aos pais que queria ser freira e a partir daí não descansou enquanto não cumpriu o objectivo. Aos 12 anos, feita a instrução primária, disse ao pai que não queria estudar mais e pediu-lhe para ingressar numa congregação religiosa. Lembra-se da sua atitude de prometer a Deus não se casar porque queria ser sempre Dele. O progenitor, um professor muito religioso que andara no seminário, deu-lhe a escolher entre as franciscanas, em Coimbra, em cujo lar a sua irmã Maria Celeste estava enquanto frequentava a universidade, ou a congregação onde tinha duas primas.
A jovem optou pela congregação onde tinha as suas primas e no dia 2 de Outubro de 1942 o pai veio trazê-la à Fundação Luísa Andaluz. “Não sabia quem eram as primas que estavam na congregação que tinha sido aprovada três anos antes”, mas Maria Teresa Dias resolveu apostar na Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima.
“Aqui havia um grupo de meninas a quem chamavam as apostólicas, que eram as meninas que queriam ser irmãs”. Foi aí que a levaram a continuar os estudos. “Eu não queria estudar mais, queria era ser freira”. Fez o liceu no colégio Andaluz e depois o 6º e o 7º no colégio de Santa Margarida, também em Santarém. Depois foi para a universidade em Lisboa, onde tirou o curso de Biologia. Só depois foi para irmã, mas ao longo desse trajecto nunca teve dúvidas. E conta uma pequena história elucidativa. Uma vez, ainda estudante, ia com uma colega quando encontraram uma cigana que, depois de ler a sina à amiga, olhou para a mão dela e leu-lhe a sentença: “Disse-me que o Diabo não queria nada comigo e que eu não queria nada com rapazes”.
Maria Teresa Dias nasceu em 15 de Março de 1930 em Cernache do Bonjardim, concelho da Sertã. Os pais eram professores. A família era originária de Envendos, concelho de Mação, onde ainda tem casa. Diz que nunca sentiu o apelo da vida mundana. Em jovem quando passava férias na casa de família em Envendos, “ia aos bailes mas nunca dançava”.
Após a universidade foi para a formação religiosa em Lisboa e depois da profissão religiosa regressou a Santarém, começando por dar aulas de português em substituição de uma irmã professora que tinha adoecido. No colégio Andaluz, iniciado em 1960, deu aulas de biologia até 1975 e leccionou ainda um ano na Escola de Enfermagem.
O Colégio Andaluz acabou em 1975 e as instalações foram adquiridas pelo Estado. Ali funcionou durante alguns anos o ciclo preparatório. Mais tarde, nasceu naquele complexo o Instituto Politécnico de Santarém, que ali tem a sede e as escolas superiores de Educação e de Gestão.

Projecto para estátua da Madre Andaluz continua na gaveta
Conviveu com a Madre Luiza Andaluz. Que memórias guarda dela?
São muito boas memórias. Conheci-a no início da década de 40 mas foi quando estudei em Lisboa, na casa onde ela estava, que convivemos. Era uma senhora sempre atenta a tudo. Impressionou-me muito porque se interessava sempre por tudo e por todos. Era uma mulher muito alegre e sempre atenta ao que se passava no mundo. Lembro-me que a madre emprestava-nos o rádio para ouvirmos o relato dos jogos de hóquei em patins.
Gostava de desporto?
Gostava de hóquei em patins. Na altura, a equipa de Portugal era campeã mundial e por isso tínhamos um maior interesse em acompanhar os jogos.
Qual é a importância da Madre Luiza Andaluz para Santarém?
Penso que está muito esquecida, não se fala nela.
Santarém tem sabido reconhecer a importância da Madre Andaluz para a cidade?
Ainda não. Quando era presidente da Câmara de Santarém, José Miguel Noras prometeu uma estátua. Criou-se uma comissão, que integrei. Estava tudo preparado, já se tinha falado com o escultor e tudo. Quando a autarquia mudou de presidente o projecto perdeu-se.
O que é feito desse projecto?
Ficou na gaveta. Depois de regressar de Moçambique, em 2008, reunimos com o actual presidente Moita Flores e reactivou-se o projecto, mas estamos à espera que se possa avançar. Sabemos o momento difícil que a câmara está a atravessar e por isso não sei quando podemos tirar o projecto do papel. O dr. Martinho Vicente Rodrigues, que diz que a Madre Luiza Andaluz não pode ficar esquecida nem ignorada, tomou a iniciativa de ouvir o grupo “Amigos Luiza Andaluz” para dar andamento ao projecto da estátua, a partir da recolha de donativos. Esperamos que o projecto se concretize para o ano e se organize um ciclo de conferências para dar a conhecer Luiza Andaluz.

Colégio acabou depois da Revolução dos Cravos
Foi a última directora do Colégio Madre Andaluz. Como foi o processo que levou à sua extinção?
Não éramos uma congregação religiosa missionária e por isso não tínhamos isenção de impostos. O colégio tinha muita despesa derivada das cerca de 300 internas e muitas externas que tínhamos. Pouco antes do 25 de Abril houve uma fiscalização das finanças que nos fez pagar cinco vezes mais de impostos e não tirávamos descontos dos trabalhos das irmãs. Já tínhamos marcado uma reunião com o vereador da câmara para decidir que destino dar ao colégio quando rebentou o 25 de Abril de 1974. No mês seguinte propusemos ao Ministério da Educação a aquisição do colégio. Adquiriram primeiro aquele a que chamávamos o pavilhão das aulas. Tinha ginásio, salas de música, salas de desenho. O Estado deu cinco mil contos pelo pavilhão. Mais tarde o Ministério da Educação adquiriu todas as instalações por mais 18 mil contos. O Colégio Andaluz cessou funções em 1975.
Ficou um vazio na sua vida depois do encerramento do Colégio?
Não, de maneira nenhuma. Tive sempre muito que fazer. Ainda dei aulas no Colégio de Santa Margarida e também na Escola de Enfermagem.

Fundação acolhe meninas dos três aos 18 anos
A Fundação Madre Andaluz começou a dar os primeiros passos em 1923 pela mão de Luiza Andaluz. Numa altura em que milhares de pessoas morriam com pneumónica - ou gripe espanhola como era vulgarmente conhecida - muitas crianças ficaram órfãs. A instituição começou por receber 60 crianças que perderam os pais devido a essa doença, tendo alugado uma casa apalaçada propriedade do historiador e político Braamcamp Freire (edifício onde está hoje instalada a Biblioteca Municipal de Santarém).
Luiza Andaluz nunca tinha pensado seguir a vida religiosa até que aos 35 anos sentiu o ‘chamamento’ divino. Em 1923 funda a Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima. Actualmente a Fundação Luiza Andaluz acolhe trinta meninas entre os três e os 18 anos num edifício do centro histórico de Santarém e é gerida pelas irmãs da Congregação das Servas de Nossa Senhora, freiras conhecidas por não usarem hábito.
A Fundação Luiza Andaluz vive essencialmente do subsídio da Segurança Social e da generosidade de amigos e benfeitores que vão realizando algumas iniciativas para angariar fundos. É com estes meios que a fundação tem vindo a fazer a diferença na vida de centenas de jovens meninas.





 

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