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SECÇÃO: O poder local aqui tão perto

Pego, terra de gente unida em torno das lendas e tradições
fotoO orgulho pegacho

Histórias de mouras encantadas e de lobisomens, feitiços e magias fazem parte do imaginário colectivo do Pego. Uma aldeia nascida num planalto árido na margem esquerda do Tejo, no concelho de Abrantes, onde o sentimento de união dos seus habitantes será uma das suas principais características: “Podemos guerrear uns com os outros, mas é cá dentro. Fora da aldeia defendemo-nos todos. Somos pegachos”, dizem.
Falam alto e com sotaque bem acentuado, entre o arrastado alentejano e a aspereza da beira interior. Usam vocábulos pouco usuais, que só pelo sentido da frase se consegue decifrar e nem sempre. Esbandejar (sacudir) tapetes ou a roupa na ribeira, esponsar (lavar) o chão com uma esponsona (esfregona), aquecer água numa esculteira (cafeteira) e sentar-se à lareira numa tropeça (cubo de cortiça com um guizo que servia de banco) ou cadela (banco de madeira de três pés) são alguns exemplos entre muitos que no dia a dia da aldeia os pegachos continuam a utilizar.
Alegres por natureza, tudo lhes servia para um bailarico. Mesmo na Quaresma, tempo de reflexão e contenção, havia bailes, mas nessa altura era ao pé da porta e só com danças de roda. As festas tradicionais nos primeiro e segundo fins de semana de Agosto tinham fama nas redondezas. Até aos anos 80 não havia artista na berra que não actuasse no Pego.
Depois, opina o presidente da junta, “as câmaras começaram a fazer festas com arraiais populares, em vez de ser com música erudita, e como os orçamentos camarários não dão para tudo as freguesias ficaram prejudicadas. Ainda por cima na câmara os espectáculos são gratuitos e no Pego eram pagos. Cumpre-se a tradição com o Rancho Folclórico do Pego, o fogo preso, fados, o festival de folclore está incluído nas festas, e com um grupo do concelho”.
Estas eram as festas pagãs que, em alguns anos, como este, coincidem com a festa religiosa, no dia 15 de Agosto, em honra de Nossa Senhora, embora a padroeira do Pego seja Santa Luzia. A magia e o feitiço misturam-se com a religião. Diz-se na aldeia que a revolta da Maria da Fonte (1846) teve grandes seguidores na aldeia e como não podiam opor-se à proibição de sepultar os mortos na igreja, construíram o templo em cima de um velho cemitério, plantando um freixo junto, árvore que, segundo alguns estudiosos, simboliza a iniciação à bruxaria. O certo é que quando o velho freixo secou, a junta de freguesia plantou um novo no seu lugar.
“O freixo velho secou porque lhe rebentaram as raízes quando arranjaram a calçada. E este, se não fosse eu, já tinha secado também”, diz o Ti Pedro, para quem a árvore tem um significado mais particular. Era debaixo do freixo que ele guardava a carroça e a mula.
Isso foi noutro tempo, mas o Ti Pedro, com os seus 82 anos continua a manter, agora com a ajuda do filho, a taberna que herdou do pai e que tem tantos anos como ele próprio. E às quartas-feiras é sabido que a casa enche. Esta e muitas outras, porque a restauração é uma das principais fontes de rendimento dos pegachos.
Terra de tradição de bem comer e bem beber, o bucho do Pego é a imagem de marca da terra. Dantes era ao sábado, depois veio a proibição de matar porcos fora do matadouro e o “bucho” passou para a quarta. Tabernas, com ou sem mercearia, eram quase porta sim porta não e em todas elas havia bucho. Os segredos não são para revelar, mas do que se pode saber o “bucho” (estômago do porco e tripas) é cozido na água das morcelas para “ficar com gosto” e servido com rodelas de limão. Vinho tinto e pão completam o petisco. Depois vem o resto, enchidos, febras, costeletas ou entremeadas. Só se serve carne de porco. Tradicionais são também as migas de pão de trigo, cozido no azeite de fritar fatias de toucinho e acrescentadas com a água das batatas. Um “par de migas”, como se diz no Pego, leva batata.
A aldeia das casas baixas
O nome Pego poderia ter derivado de pelagus que em latim significa poço fundo, mas há uma lenda que envolve uma bela moura que encantou um oficial francês. Muitas histórias se teriam contado nas noites quentes de Verão nos poiais (que os pegachos preferem chamar de piais ou piéis) das casas baixas. Histórias trazidas de outras paragens, porque a terra era pobre e os homens trabalhavam sazonalmente por vários meses, principalmente no Alentejo e na região de Setúbal. Muitos eram carvoeiros, trabalhavam na cortiça ou noutras actividades agrícolas e preparatórias.
Mas das casas térreas de paredes brancas e barras azuis ou amarelas já pouco existe. Um plano para preservar a conservação desta arquitectura característica é clamado pelos habitantes do Pego. O plano de urbanização, actualmente em discussão pública, limita a altura das construções, mas não tem qualquer incentivo particular para a recuperação destas habitações.
A pia dos burros continua a adornar o jardim da aldeia. Era o bebedouro dos burros e dos noivos na véspera do casamento. Na despedida de solteiro os pegachos tinham de beber água na pia. Havia também o muro da praça, onde novos e velhos se juntavam. O muro foi rebaixado e na pequena praça que contorna foram instalados bancos para descanso dos mais velhos. Porque apesar da construção civil continuar com um certo dinamismo e a escola ter para cima de 60 crianças, a população é cada vez mais idosa. “Temos 40 óbitos por ano e não nascem 40 crianças no Pego”, lamenta o presidente Joaquim Santos.
Margarida Trincão





 

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