Emprego
Classificados
Meteorologia
Farmácias
Resultados Futebol

Arquivo

Especial Feira de Campo

Joaquim Paulino nasceu no Monte do Biscainho ao lado da Herdade da Torrinha
"Quem quer conhecer o campo tem que vir ao campo"

foto
Edição de 2013-09-12
Imprimir ArtigoComentar ArtigoEnviar para um amigoAdicionar aos favoritos

Joaquim Paulino percebe de muita coisa que foi aprendendo ao longo da vida mas do que sabe mais é da vida do campo. Aos oito anos já ajudava o pai, que era agricultor, a trabalhar a terra. Saía da escola, onde andou até completar a antiga quarta classe (ensino básico) e ia trabalhar até ao cair da noite. Mondava arroz e o pai obrigava-o a conhecer todas as ervas. Andava descalço e os pés já estavam tão calejados que podia pisar silvas sem sentir dor.

Nasceu há 64 anos no Monte do Biscainho, local que hoje é propriedade da família Ribeiro Telles, e que fica ao lado da Herdade da Torrinha, em Coruche, local onde, no próximo fim- -de-semana decorre a primeira edição da Feira do Campo. Se há pessoa que possa explicar a uma criança, ou mesmo a alguns adultos, que cães e gatos não servem apenas para estar no sofá da sala a olhar para a televisão e a comer ração comprada no super-mercado é ele.

“Quando víamos um buraco de rato levávamos o gato até ao local. Escavávamos para ajudar e o gato caçava-o", explica. "Os cães guardavam a quinta e os rebanhos e comiam os restos da comida que nós comíamos. Agora só comem ração e rejeitam restos. São esquisitos e não fazem nada. Só servem para companhia", diz com boa-disposição.

A burra do pai de Joaquim Paulino não servia para passeios turísticos pelo campo ou sessões de terapia. Puxava o arado para lavrar a terra ou a carroça onde a família se deslocava. Como viviam no Biscainho, sempre que queriam ir a Coruche (o que só acontecia quando havia festas ou feiras) tinham que ir de carroça e quem a puxava era a burra, claro. Na altura Portugal não pertencia a nenhuma União Europeia e os donos dos burros não recebiam subsídio. Também não havia associações de protecção dos animais e por isso quando a burra teimava em parar levava umas pancadinhas de incentivo. Era a vida!

O agricultor ainda esteve sete anos na Marinha, onde prosseguiu com os estudos porque queria fugir à vida dura do campo. Como era filho único o pai pediu-lhe para regressar e ajudá-lo e Joaquim Paulino não conseguiu dizer que não.

A sua infância foi muito diferente da dos seus netos, que actualmente têm 23 e 20 anos. “Ajudei a criá-los. Brincaram muito, felizmente, e os pais já não os obrigavam a levantar cedo. Hoje têm telemóveis e essas coisas todas e no meu tempo não havia nada disso. Com muita sorte tínhamos um carrinho de madeira que o pai fazia e que empurrávamos com uma cana. Primeiro era o trabalho. Havia pouco tempo para brincar", lembra.

Quando veio da Marinha foi trabalhar para a família Ribeiro Telles, na Herdade da Torrinha, em Coruche. Durante 15 anos fez de tudo um pouco. Confessa que o mestre David Ribeiro Telles foi um segundo pai. Foi encarregado da casa, comandava as operações e ainda trabalhava com as camionetas dos cavaleiros tauromáquicos.

Naquela altura toureavam o mestre David e os filhos João, António e o Manuel. “Quando chegávamos às praças ainda ajudava a entrançar os cavalos. Fiz um pouco de tudo”, diz. Nos últimos anos trabalhou como motorista mas entretanto reformou-se. Também foi autarca. Termina agora o seu quarto mandato como presidente da Junta de Freguesia do Biscainho.

Durante uns anos ainda deu continuidade ao trabalho do pai mas fartou-se e agora possui apenas um pequeno terreno com uma horta. Também cria galinhas e porcos. "É raro ir ao supermercado. Como aquilo que produzo", assegura.

Amigo da família Ribeiro Telles há muitos anos diz sentir-se orgulhoso pela iniciativa de João Ribeiro Telles em organizar a Feira do Campo. “Estas iniciativas são importantes para as pessoas das cidades perceberem como a vida no campo é diferente da vida urbana. A Feira do Campo faz sentido realizar-se no campo e não na cidade como aquelas que se realizam em Lisboa, no Terreiro do Paço. Quem quer perceber o que é o campo tem que vir ao campo”, conclui acrescentando que vai ajudar a montar toda a estrutura para a feira.

Diga o que pensa sobre este Artigo. O seu comentário será enviado directamente para a redacção de O MIRANTE.

Gostei Concordo
Comentários
Nome Email
Autorizo a eventual publicação na edição em papel do Mirante.

2008 © Jornal O MIRANTE, todos os direitos reservados | Termos de Utilização | Política de Privacidade | FAQ’S | Contactos | RSS

Voltar ao topo