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Manuel da Conceição Raposo é produtor de mel há mais de meio século
No doce mundo das abelhas

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Há mais de meio século que o apicultor Manuel da Conceição Raposo se deixou embrenhar no maravilhoso mundo das abelhas. A dedicação sobreviveu a muitas picadas. Segundo os seus cálculos leva entre 300 a 400 ferroadas por ano. Mas a labuta diária das obreiras e a forma organizada como produzem o mel seduzem o apicultor. “Se os homens fossem tão organizados como as abelhas o mundo seria maravilhoso”.

Edição de 2003-05-15
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É tarde de primavera na rua do jardim, em Alpiarça. Um quintal estreito prolonga-se até um pequeno aglomerado de laranjeiras que atraem enxames de abelhas.

O apicultor Manuel da Conceição Raposo, 73 anos, tem tudo a postos para receber as obreiras. Num dos telheiros do quintal instalou umas caixas de madeiras que se assemelham a colmeias – são as “caixas de povoação”.

É assim que o apicultor recolhe os enxames que produzem o seu mel. Este ano já “apanhou” 14. Cada enxame tem cerca de 25 mil abelhas. Às vezes descobre as abelhas no campo, quando pousam nas caixas vazias colocadas estrategicamente para atrair novos enxames. Outras vezes são vizinhos que o chamam quando vêem aproximar-se a inconfundível nuvem de insectos. Costuma retribuir a delicadeza com mel.

O apicultor tem 48 colmeias em tons verde e rosa claros, para não afastar as abelhas. Em cada uma caixas de madeira são colocados vários quadros de cera moldada onde as abelhas depositam o mel. Em cada uma das colmeias coloca uma ficha onde regista a evolução do enxame.

Entre Março e Junho retira-se o mel das colmeias. É a época da cresta. Uma das alturas mais trabalhosas da apicultura. Quando termina o Verão, na época das vindimas, volta a colher um mel mais escuro que conserva o sabor das uvas tintas e dos frutos que as abelhas salteiam.

Na antiga adega que transformou numa pequena fábrica, Manuel Raposo retira cuidadosamente o mel e passa-o num filtro. Coloca-o depois em talhas próprias. Uma colmeia pode render 15 quilos de mel.

Em Fevereiro e Março, quando abre a flor de laranjeira, começa a reunir novos enxames. As obreiras são alimentadas nas colmeias a mel e água.

O apicultor tem a preocupação de visitar as abelhas quase diariamente para saber se a colmeira precisa de uma nova alça (prolongamento da caixa). Assim que as obreiras enchem a colmeia de mel saem para procurar nova casa onde continuar a laborar. Esta é uma das poucas vezes em que a abelha mestra pode ser obrigada a deixar o “reino”. Normalmente só sai para procriar. Nessas alturas voa a pique na direcção do céu atraindo os zangões.

A abelha mestra, a única fêmea fecunda no enxame, esgota-se ao fim de dois anos. É alimentada a geleia real, o que lhe confere o estatuto de “rainha”. Uma abelha carreteira, alimentada de pólen, dura apenas 50 dias. As horas de voo e de trabalho desgastam-lhe as frágeis asas. Quando a abelha mestra morre os restantes insectos alimentam instintivamente uma das abelhas com geleira real em vez do habitual mel e pólen.

Para visitar as colmeias instaladas no campo de Alpiarça o apicultor vai munido de equipamento próprio. Veste um fato claro que cobre todo o corpo e coloca a característica máscara. “Há dias em que tenho que ir com a máscara no carro porque me perseguem durante algum tempo”, descreve.

Para evitar que as abelhas o ataquem o apicultor costuma fumegar a colmeia antes de a abrir. “As abelhas enchem-se de mel, como forma de defesa instintiva, e assim não conseguem dobrar-se para picar”, explica. Utiliza ainda um alicate para retirar os quadros recheados de mel das colmeias.

Manuel da Conceição Raposo é apicultor há 52 anos. Foi contagiado pela paixão das abelhas depois de vir da tropa por influência de um amigo. “Comecei a gostar do funcionamento e organização das abelhas e nunca mais parei”, justifica.

A dedicação sobreviveu a muitas picadas de insectos em todo o corpo, que o deixaram quase sem conseguir abrir os olhos. Segundo os seus cálculos levará entre 300 a 400 ferroadas por ano. “Costumo dizer que não conhecem o dono”, diz com humor.

Foi carpinteiro e trabalhou num escritório de contabilidade. Aos 65 anos reformou-se e dedicou-se a tempo inteiro à apicultura. O ofício que teve durante muitos anos permite-lhe construir o material que utiliza na produção do mel.

De todo o mel que produz, cerca de 400 quilos por ano, é mais aquele que oferece do que aquele que vende. O negócio, de pequena dimensão, não é muito rentável. O frasco de meio quilo custa dois euros. Um quilo de mel pode valer 3.75 euros.

O que o apicultor mais gosta é de ver as abelhas na labuta diária. Ao longo de mais de meio século que as abelhas são animais muito trabalhadores e solidários. “Se os homens fossem tão organizados como as abelhas o mundo seria maravilhoso”.

Ana Santiago

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