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Sociedade Euterpe Alhandrense e a fórmula da disciplina e organização
Estar em grande forma e rejuvenescida aos cento e cinquenta anos

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A Sociedade Euterpe Alhandrense celebrou em 2012 os seus 150 anos de vida ao serviço da comunidade. O presidente, Jorge Zacarias, diz que a associação está a viver um dos melhores momentos da sua história e garante que o segredo da longevidade é o amor à camisola das gentes de Alhandra. Música, desporto e teatro continuam a ser as principais actividades. O conservatório criado há 15 anos é um sucesso.

Edição de 2013-02-14
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Sendo natural de Alhandra, como é que começou a sua relação com a Sociedade Euterpe Alhandrense (SEA)?

Um tio fez-me sócio da colectividade em 1974, tinha eu 14 anos. Não frequentava a colectividade, só mais tarde, aos 18 anos, é que comecei a aparecer por lá porque uns amigos estavam na secção cultural. Nos últimos 39 anos só durante 3 anos não estive ligado à colectividade. A Euterpe era o grande pólo aglutinador de toda a sede de cultura que o 25 de Abril nos trouxe.

Qual foi para si o pior momento da SEA nestes anos?

O vazio directivo no final dos anos 90. Mas hoje acho que a SEA está a passar por um dos melhores momentos da sua história, do ponto de vista das pessoas e da vida interna da colectividade. Teve nos anos 40 e 50 grandes momentos de apogeu artístico, nomeadamente com a banda dirigida pelo maestro Silva Marques. Mas claramente este é o momento em que a colectividade tem mais gente e mostra mais vitalidade.

Qual o segredo da longevidade?

Alhandra é uma terra de gente trabalhadora, que gosta de fazer coisas pela sua terra. As instalações da SEA, por exemplo, foram construídas pelas pessoas de Alhandra, que vinham para aqui trabalhar durante a noite e fizeram tudo isso em regime de voluntariado. Esse é o segredo.

O que lhe tira o sono?

O fim do mês, sobretudo os dias 25 e 31, quando começo a pensar nos 50 mil euros que tenho de arranjar para pagar tudo isto, sobretudo os ordenados e outros encargos fixos mensais da colectividade.

Quando anda pelos corredores tratam-no por Jorge ou presidente?

Por Zacarias. As pessoas que hoje frequentam a colectividade a maioria não é de Alhandra mas tem uma boa relação comigo. Há um clima de respeito e informalidade.

Sabe música?

Não, nunca tive jeito. Mas dentro das modalidades que temos as que mais me cativam são a música e o teatro. Acabei por me dedicar a gerir, em parte por falta de tempo para aprender, que é algo que exige bastante dedicação.

Que instrumento o põe a chorar?

Um solo de saxofone, sem dúvida.

Já invocou o nome da SEA em vão?

(risos) Nunca, só com uma causa justificada. A associação é sagrada para mim.

Já levou um raspanete da família por passar aqui muitas horas?

Ainda não, felizmente.

A sede da colectividade é junto ao rio. Se houvesse uma grande inundação, o que salvava primeiro?

Depois de salvar as pessoas tentava salvaguardar o espólio, que tem peças valiosíssimas, inclusive do maestro Silva Marques e muitos documentos históricos do século 19. O cofre não salvava, não tem grandes valores.

Têm mecenas?

Neste momento nem um.

Quais são os principais desafios que se levantam hoje?

A requalificação do nosso salão. Tem cadeiras más, num espectáculo mais erudito provocam muitos ruídos de fundo, não são cómodas. E o espaço é frio e desagradável. Neste momento o que mais me dói é não conseguirmos criar outro tipo de condições, ampliar esta sede, melhorar as condições acústicas das salas e ter um bom auditório.

O teatro Salvador Marques está fechado há mais de uma década e fica aqui perto. Seria uma oportunidade…

Era um espaço muito interessante para a SEA. Estivemos envolvidos em toda a requalificação daquele espaço há cerca de cinco anos e depois, por motivos políticos, foi interposta uma providência cautelar que levou a que o projecto para ali desenhado não pudesse ser implantado. Isso levou a que tudo parasse e neste momento não há perspectivas da sua recuperação.

Uma associação como a Euterpe beneficiaria de uma direcção profissional a tempo inteiro?

Sou contra as direcções profissionais. Deixamos de ter o conceito democrático, onde todos participam em prol de todos, para termos algo que passa a ser só de alguns, que tenderão a apropriar-se disso. Acho que as associações devem ter funcionamento profissional, como uma empresa, mas não pago.

Estar a dirigir uma colectividade com 150 anos dá-lhe uma responsabilidade acrescida?

Sim e temos feito uma gestão cuidada, disciplinada e organizada. As nossas dívidas são de pouco mais de 30 mil euros para um orçamento de 800 mil euros por ano. Com este passivo temos capacidade para chegar ao final do ano e não deixar passar dívida para o ano seguinte. Temos também tentado alargar as nossas actividades e estabelecer parcerias com outras colectividades do concelho no sentido de criar ganhos de escala.

Está à frente da direcção da SEA desde 1990. Ainda tem força para liderar os destinos desta casa?

Quando temos uma equipa acreditamos que o nosso projecto é o melhor e queremos levá-lo até ao fim. Não me sinto cansado, apenas um pouco desiludido.

Desiludido com o quê?

Quando olhamos para alguns lados e vemos que estamos sozinhos. Olho para os apoios dados ao movimento associativo e não os vejo, nomeadamente ao nível da administração central. Pensar-se que a SEA só serve para ensinar música ou deixar os miúdos darem uns saltos no ginásio é escamotear o que realmente é o papel desta associação na comunidade. Estamos a falar da ocupação de centenas de jovens que se não for a associação estarão “ao Deus dará”, sem saber o que fazer e sem orientação para a sua formação e o seu crescimento.

Esta crise é uma forma de ensinar as associações a não estarem de mão estendida à espera de subsídios?

Esta crise dá-nos uma dimensão objectiva daquilo que são os problemas do movimento associativo. Temos de encontrar caminhos diferentes. Infelizmente estamos subordinados exclusivamente aos apoios concedidos pelo poder local porque há muito tempo que o poder central se divorciou do associativismo. Tudo o que recebemos do estado acaba por ser devolvido em impostos. Acho que estas colectividades têm de ter mecanismos de financiamento, sejam do estado ou de privados, que nos permitam funcionar e não sejam vistos como subsídios à exploração mas antes como um investimento em entidades de bem que promovem actividades úteis para a população.

A banca deveria ter uma maior visão social?

Nunca recebemos uma nega da banca. Mas o sector financeiro e o sector produtivo têm de ter responsabilidade social e ser mais objectivos e evidentes no apoio que nos concedem. No contexto local as colectividades têm uma relação muito próxima com as populações e devem ser reconhecidas por isso.

Euterpe deusa da música inspira as gentes de Alhandra há 150 anos

Fundada a 1 de Dezembro de 1862, a Sociedade Euterpe Alhandrense, de Alhandra, é a colectividade mais antiga do concelho de Vila Franca de Xira e celebrou em 2012 os seus 150 anos de existência.

O timoneiro da colectividade é Jorge Zacarias, um alhandrense de gema, que não se cansa de dar o seu melhor pela associação onde entrou pela primeira vez aos 14 anos.

Na base da fundação da colectividade está um grupo de amigos, apaixonados por música, que ficaram encantados ao ouvir a banda que acompanhou o cardeal Manuel Bento Rodrigues numa visita a Alhandra, no Verão de 1862. Quiseram de imediato criar a sua própria banda, que servisse a comunidade da vila à beira Tejo. Cinco meses depois nasceu a Sociedade Euterpe Alhandrense. Deram-lhe o nome de Euterpe, uma das nove musas gregas, filhas de Zeus. Euterpe, deusa da música, tocadora de flauta, pareceu a escolha ideal.

O grande apogeu da banda viveu-se na década de 40, sob a direcção do maestro Silva Marques. Mais tarde viria a assumir papel de destaque durante o período de resistência ao Estado Novo de Salazar, tendo sido ponto de encontro de poetas, músicos, escritores e combatentes anti-fascistas. Depois do 25 de Abril de 1974 a Euterpe Alhandrense continuou a crescer, quer em número de músicos, quer na variedade de modalidades disponíveis. O seu trabalho em prol da comunidade foi reconhecido com a medalha de mérito do concelho de Vila Franca de Xira, recebeu o diploma de honra da Federação das Sociedades de Educação e Recreio e foi considerada colectividade de utilidade pública em 1979. O ponto alto foi em 1993, quando o então presidente da república, Mário Soares, atribuiu à colectividade o título de membro honorário da ordem de mérito.

Hoje em dia a associação movimenta mais de 800 pessoas, espalhadas pela música, dança, desporto, teatro e fotografia. No final do ano a equipa de Kempo da colectividade sagrou-se campeã europeia da modalidade. Uma das imagens de marca da Sociedade Euterpe Alhandrense é o conservatório regional Silva Marques, criado há 15 anos, que tem 500 alunos e 25 professores e tem sido um caso de sucesso, captando alunos de todo o país.

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