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Arquivo: Edição de 30-07-2009

Sociedade

Um olhar sobre a vida na lezíria de ontem e de hoje
“Éramos mais que ciganos do Tejo”

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Manuel do Vau nasceu na Lezíria Grande de Vila Franca de Xira e recorda uma vida entre o rio e as terras agrícolas. Só a união entre familiares e amigos compensava a dureza dos dias. “Se o tempo voltasse para atrás, havia quem morresse de susto”, graceja. Histórias de trabalho, cultura, amor e política pela voz de um dos mais respeitados avieiros da terra. Ricardo Leal Lemos

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Manuel do Vau sai de casa na tarde soalheira de uma quinta-feira com a expressão de quem gosta de companhia para conversar. O avieiro, para quem Vila Franca de Xira se tornou casa há 45 anos, é uma das figuras mais respeitadas da sua comunidade. O veterano, 77 anos, responde à curiosidade de quem dele se aproxima com a segurança de quem é visto como um porta-estandarte da tradição que, no concelho, ainda marca as zonas ribeirinhas de algumas freguesias.

“Se o tempo voltasse à época em que eu era pequeno, no que respeita a trabalho, havia quem morresse só de susto”, graceja Manuel do Vau. Nascido com o apelido da Cunha na localidade do Vau, em plena Lezíria Grande, o avieiro cresceu entre a pesca do sável no Tejo e a lavoura. “O Alves Redol escreveu num livro que éramos como ciganos do rio. Há quem não goste, mas critique porque não viveu esse tempo. Numa noite, dormíamos um bocado em Vila Franca, outro na Vala do Carregado, outro mais acima. Para mim éramos mais que ciganos do Tejo nesse sentido”.

Filho de mãe avieira e pai natural da Murtosa, perto de Estarreja, Manuel do Vau começou a trabalhar aos sete anos de idade. “Na pesca, a minha função era puxar as cordas das redes. Na agricultura, fiz de tudo. Semeio, monda, ceifa. Parti os torrões que ficam depois de a terra ser lavrada e espantei os pássaros dos campos semeados”, conta. O avieiro sempre preferiu trabalhar no rio. Na pesca quanto mais se trabalha mais vontade se tem de continuar porque o que apanhamos é para nós. No campo, trabalhávamos de sol a sol, fizesse bom ou mau tempo, sem ver nada aparecer”. A pesca do sável, entre Janeiro e Maio, era o momento crucial de cada ano para os avieiros.

“Em Salvaterra havia umas mercearias que fiavam meses até chegar a época do sável. E se a campanha corria mal, havia grandes dívidas”, conta a O MIRANTE. Só que uma boa pescaria podia não significar um ano descansado. “Chegou a haver épocas e fartura de peixe em que puxávamos as redes e o almocreve (caixeiro-viajante) levantava os chumbos da rede para o peixe (sável) fugir porque não o ia conseguir vender”, relata. “O resto do ano pescávamos enguia, salmão fataça, barbo, camarão-de-rio. Alguns destes estão em vias de extinção, mas não foi da poluição do rio. Foi por causa da construção das barragens de Castelo de Bode, e mais tarde a de Belver, que impedem os peixes de percorrer o rio”, opina.

O mundo do trabalho roubou a Manuel do Vau a possibilidade de aprender a ler. A travessia do rio fazia-se, nos anos 40, de barco ou por caminhos estreitos. “Nunca fui à escola. Para ir para Salvaterra, onde ficava a mais próxima, tinha de andar hora e meia a pé. E os meus pais tinham dificuldades económicas e precisavam de mim para trabalhar”. O pai trabalhava nos “barcos de água acima”, como o “Liberdade”. “Aqui havia dois, antes de haver a ponte. Transportavam pessoas e carros, de noite e de dia”, conta.

No campo, o pai acabou por assumir as funções de capataz. A mãe, cozinheira, preparava o rancho para muitos. A minha mãe fazia sopa todos os dias, mas muita gente quase não tinha que comer. “Quando encontrava uma caldeira sem conduto roubava um bocadinho de toucinho a outra para pôr naquela que não tinha nada”, confidencia. Para quem chegava ao rio só para a campanha do sável a realidade era mais dura. “Era sável ao almoço, ao jantar, a todas as horas...com pão de milho, quando tinham”.

Do pai herdou também o gosto pela caça. Já adulto, caçar pombos bravos à negaça, soltando um manso para os atrair, tornou-se um dos seus passatempos preferidos. Cozida inteiro, em sopa de feijão com chouriço, a ave faz as delícias do avieiro.

Com o passar do tempo, Manuel do Vau, pescador e trabalhador agrícola, decidiu vir viver para Vila Franca de Xira, onde constituiu família. As filhas ficavam numa casa improvisada, naquele que viria a ser o bairro avieiro, clandestino. “Ficavam na barraquinha e tinham que fechar a porta senão ficavam com pés de fora. Atrás daquela fiz outra maior e cheguei a fazer ainda outra. “Há 40 anos chegámos a ser guardados pela polícia a mando da Administração do Porto de Lisboa porque o terreno onde se fez o bairro era deles e não nos queriam cá mas quando deram pelas casas já estavam feitas. Só ficámos mais à vontade quando veio o 25 de Abril”, conta. A entrega do terreno à câmara municipal aconteceu. E mais tarde, no anos 80, começou o processo que levaria ao abandono do bairro por muitos habitantes e à construção do actual. “Chegámos a ser 120 famílias. Davam 5000 contos para irmos embora, muitos aproveitaram e foram morar para o Porto Alto, Alhandra, Bom Retiro. Custou-me um bocado a levar a situação mas hoje já estou por tudo”, afirma.

A separação de vizinhos, amigos e familiares não quebrou a união da comunidade. Os avieiros dinamizam o seu rancho folclórico, que só parou há dois anos, para depois ressurgir. “Com o folclore juntaram-se mais pessoas aqui. A cultura em Vila Franca de Xira devia receber mais apoio. Todas as quintas-feiras ensaiamos. Cantamos e dançamos modas baseadas na pesca, nos pescadores, com um bocadinho de tradição de Vieira de Leiria. Mas estes avieiros são mais ribatejanos. A maior parte nasceu cá”. Manuel do Vau é presidente do rancho e ainda dança. “Às vezes não quero e vêm-me buscar”.

Nos tempos livres entre a pesca, que ainda pratica em conjunto com a esposa, a caça e os ensaios, Manuel do Vau não esquece a veia poética com que nasceu. Os versos de quando era jovem surgem naturalmente. “Eu hei-de passar ao vau/Que me reza a minha sina/Eu vou ao baile ao Conchoso/Ao toque da concertina /Eu passei na barca do Vau/Lá molhei a minha mão/Encostei no teu peito/Juntinho ao teu coração”. Era um bocadinho poeta, conclui, sorrindo.

Filho de mãe avieira e pai natural da Murtosa, perto de Estarreja, Manuel do Vau começou a trabalhar aos sete anos de idade. “Na pesca, a minha função era puxar as cordas das redes. Na agricultura, fiz de tudo. Semeio, monda, ceifa. Parti os torrões que ficam depois de a terra ser lavrada e espantei os pássaros dos campos semeados”, conta. O avieiro sempre preferiu trabalhar no rio.

Amor e uma nota de 20 escudos

Aos 18 anos o pai da então namorada de Manuel do Vau mandou-a ir ter com o seu mais-que-tudo. À época o acto significava um sinal para assumir a relação e viver em comunhão. “Ela tinha comprado uma mala mas sem enxoval e apareceu no Vau. Os meus pais gostavam dela. O meu pai entregou-me o barco, as mantas com que me cobria e fui ter com os meus sogros para mostrar que a filha estava “entregue”.

A sogra recebeu-os com desvelo. “Comprou duas chávenas de barro, duas colheres, dois garfos, uma panela e um tacho, mais 20 escudos para tratar dos papéis do casamento”. Mas o casamento ficaria para depois. O dinheiro foi guardado.

Um dia, Manuel do Vau resolveu gastar parte do dinheiro em melões. A tarde corria longa e fora abandonado por dois homens de Lisboa com quem combinara ir caçar codornizes na zona do Malagueiro, mostrando-lhes o terreno. Tinha ido pescar enguias aos arrozais, no concelho de Vila Franca de Xira, e no regresso ia realizar a compra. Chegado à propriedade onde ia comprar a fruta encontra os dois parceiros com quem combinara caçar, Amiais e Jorge. “Desculpa teres estado à espera. Tive um furo no carro, mas toma estes 20 escudos para te compensar”, disse Amiais. Estendeu-lhe a nota. “Boa hora que fui aos melões!”, disse mal cheguei a casa”, conta Manuel do Vau. “E até hoje, os 20 escudos nunca mais se acabaram. Não arranjei fortuna, mas cada vez que sobeja dinheiro, vai-se juntando”.

Um porta-estandarte dos avieiros

Manuel do Vau fica para a história dos avieiros como um verdadeiro porta-estandarte. Na época em que Daniel Branco liderava do executivo municipal era ele um dos avieiros que guiava turistas e alunos de escolas pela tradição da sua comunidade. “Chegavam a vir excursões de Vieira de Leiria para nos visitar”, conta.

A série “Uma aventura”, criada por uma emissora de televisão, gravou-lhe no início do século XXI o rosto nos ecrãs. Ali, encarnou a pele de Constantino, um passador de droga, que conduz algumas das personagens, rio abaixo, num barco, entre a Vala do Carregado e Alhandra. “Dinheiro, não obrigado. Faço tudo isto por amor”, confessa Manuel do Vau.

Por amor, ou por piedade, também já salvou potenciais suicidas das águas do Tejo. “Até agora, apanhei três, que se atiraram da Ponte Marechal Carmona. E nenhum deles morreu. Agora ganharam mais medo às águas e acho muito bem que o tenham”, conta.

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