Arquivo: Edição de 20-03-2008
SociedadeRede Eléctrica Nacional não criou plataformas alternativas após arranque de postes
Cegonhas desnorteadas provocam cortes de energia em Ulme
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Falta de postes para nidificação provoca desorientação nas aves que acabam por embater nos fios de média tensão.
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Vinte ninhos de cegonhas foram retirados de três postes de alta tensão no início deste ano, na zona industrial de Ulme, Chamusca. O acto praticado por uma equipa da REN (Rede Eléctrica Nacional) deixou uma comunidade de cegonhas sem pouso pelo que as aves, desorientadas e à procura de local para fazerem novo ninho, acabam muitas vezes por embater nas linhas de média tensão, provocando grandes descargas de energia, sucumbindo em seguida. Ao contrário do que foi anunciado, a Rede Eléctrica Nacional não criou as plataformas alternativas para que as cegonhas possam fazer os seus ninhos noutras zonas, situação que a junta de freguesia lamenta.
António Peixinho, presidente da Junta de Freguesia de Ulme, denunciou recentemente o caso à Câmara Municipal da Chamusca que deliberou fazer pressão junto da EDP para a resolução do problema. “No ano passado, a REN fez um inventário dos postes de alta tensão desactivados que existiam aqui e três destes postes, que se encontravam a atravessar os arrozais, foram deixados porque tinham ninhos de cegonhas e estávamos na época de nidificação. Entretanto, pediram autorização ao Instituto da Conservação da Natureza (ICN) e foi-lhes permitido levantar esses postes até 15 de Janeiro”, explicou o autarca de Ulme a O MIRANTE.
O presidente da junta acrescenta que a acção fez levantar um coro de protestos por parte dos populares que temiam a dizimação das cegonhas mas que não surtiu efeito uma vez que a acção estava devidamente autorizada. António Peixinho questionou os responsáveis se não poderiam substituir os postes retirados por outros, de modo a possibilitar às aves a construção de novo ninho, mas a resposta não foi positiva.
“Disseram-me que existia esse projecto, mas que esta zona não estava contemplada”, apontou o autarca que realçou a importância das cegonhas para Ulme, uma vez que constituem um pólo de atracção turística para a localidade. “Estamos a falar de uma colónia de cerca de meia centena de cegonhas que já não saem daqui nem de Verão nem de Inverno”, salientou, reforçando que na torre da igreja existe um ninho habitado por um casal de cegonhas há cerca de três anos.
O autarca já assistiu à electrocução de uma ave. “Foi um estrondo enorme, o pobre animal acabou por morrer e cair num terreno privado”, relata. Segue-se o corte de energia que afecta, sobretudo, os empresários das fábricas da zona industrial de Ulme que, deste modo, têm prejuízos na produção. “Os donos das fábricas queixam-se à junta e perguntam a quem devem pedir indemnizações, uma vez que a electricidade demora sempre algum tempo a ser reposta, tempo em que estão com as máquinas e empregados parados”, atesta. “Neste caso a junta não tem autoridade para fazer mais nada”, conclui.
As cegonhas têm sido alvo da atenção do ICN e de associações ambientalistas, como é o caso da Quercus, existindo mesmo um projecto da associação ambientalista em curso que se chama ‘Linhas Eléctricas e Aves’ e que tem o objectivo contribuir para a compatibilização da rede eléctrica de alta e média tensão com a conservação das aves. A Quercus afirma que nos últimos dois anos 1.600 aves morreram electrocutadas, pelo que é de todo o interesse colocar os ninhos em locais mais seguros, como plataformas ou postes falsos.
O MIRANTE contactou a REN para tentar obter mais esclarecimentos, mas não obteve qualquer resposta até ao fecho desta edição.
