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Arquivo: Edição de 20-03-2008

Sociedade

O cavalo jaz por terra, traído pelo coração que não aguentou as emoções de uma queda aparatosa durante uma picaria.

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O cavalo jaz por terra, traído pelo coração que não aguentou as emoções de uma queda aparatosa durante uma picaria. A poucos metros, um bezerro ensanguentado debate-se com fúria para escapar aos abraços humanos que o tentam imobilizar. O quadro sintetiza de forma dramática o sortilégio da chamada festa brava. O sangue, a dor e a morte ensombraram a manhã de domingo em Santarém e houve quem se despedisse do infeliz cavalo com lágrimas ou com palmas.

Minutos antes, na mesma a picaria durante as Festas de São José, tinha ocorrido outro episódio digno de destaque, mas esse mais rocambolesco e sem consequências tão trágicas. Um dos bezerros, provavelmente farto de ser picado, foi tão competente a fugir de cavalos e cavaleiros que se escapou aproveitando a fragilidade da vedação e desapareceu sem deixar rasto nem danos pessoais ou materiais.

Os cavaleiros bem tentaram persegui-lo pelas ruas da cidade mas acabaram por regressar ao Campo Emílio Infante da Câmara de mãos a abanar. Na tauromaquia, como em muita coisa na vida, não há verdades absolutas nem ganham sempre os mesmos. E por vezes até há surpresas que nos fazem nascer um sorriso nos lábios.

A fuga do bezerro para a liberdade, ainda que provavelmente precária e a prazo, é resultado do desespero mas também do inconformismo de quem acredita que na vida há sempre uma saída para cada problema e que a esperança deve ser sempre a última coisa a morrer. Quando a vedação se abateu perante a investida desesperada do acossado animal confirmou-se que nem sempre o destino está previamente traçado por quem pensa que tem mais poder. E que às vezes uma marrada bem dada pode mudar completamente o cenário e abrir as portas da liberdade. João Calhaz

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