Arquivo: Edição de 20-03-2008
SociedadeProvedor da Misericórdia diz que só haverá rentabilidade com as 23 camas preenchidas
Unidade de cuidados continuados de Tomar começa a funcionar com cinco utentes
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De robe azul com flores bordadas, D. Arminda está confortavelmente sentada na sala de convívio da unidade de cuidados continuados do Hospital da Misericórdia de Tomar. Chegou no dia 12 e foi a primeira utente a usufruir do espaço. Na segunda-feira já tinha mais quatro companheiras, todas mulheres. Mas ainda falta muito para a ocupação total – 23 camas - ser preenchida. “Tanta urgência para abrirmos, tanta gente à espera nos corredores dos hospitais e tantas vagas aqui”, desabafa o provedor da Santa Casa da Misericórdia da cidade, adiantando que actualmente a unidade tem mais funcionários que utentes.
No segundo piso do hospital, destinado aos cuidados continuados, tudo cheira a novo. As duas camas de um dos oito quartos já estão ocupadas. Duas idosas chegadas na sexta-feira do Hospital de Santarém vêem televisão no ecrã plasma instalado na parede em frente. “Em todos os quartos há um”, diz orgulhoso Fernando de Jesus, mostrando também a moderna casa de banho privativa. Os quartos são amplos, há cadeirões de apoio para as visitas e camas sofisticadas que se elevam e baixam através de um comando. No quarto ao lado, uma auxiliar dá o lanche a outra idosa, transferida do hospital do Entroncamento. Não é muito faladora. Entre duas colheradas diz-nos apenas que nasceu em Alburitel (concelho de Ourém).
Fernando de Jesus faz contas à vida. A requalificação do antigo hospital distrital de Tomar custou à Santa Casa cerca de três milhões de euros, com a comparticipação estatal, através do programa Saúde XXI, a não ultrapassar os 500 mil euros. “A gestão tem de ser muito cuidada e mesmo assim será difícil rentabilizar o espaço”, admite o provedor. É por isso que no rés-do-chão do edifício há quatro modernos gabinetes médicos e dois de enfermagem, prontos a serem alugados. Com uma recepção diferente, “para não misturar as coisas”.
O piso intermédio está destinado a uma unidade de grandes dependentes, apenas para usufruto dos utentes da Misericórdia. “Funcionará como um complemento ao nosso lar”, diz o provedor. O bloco operatório situado no primeiro piso é o único espaço que ainda não está devidamente apetrechado. Primeiro há que pôr toda a “máquina” a funcionar e angariar dinheiro para comprar o necessário equipamento. Depois, o bloco será também alugado para pequenas cirurgias.
A operacionalidade da unidade de cuidados continuados é garantida por seis auxiliares de serviço, enfermeiros que garantem as 24 horas, além de dois funcionários encarregues da manutenção e outros dois adstritos ao serviço de limpeza. Em regime de prestação de serviços há ainda a presença diária de um médico de clínica geral e a visita de uma fisioterapeuta, uma psicóloga e um animador.
A Santa Casa da Misericórdia de Tomar recebe uma diária de 47,10 euros por cada utente transferido para a unidade de cuidados continuados. A Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo comparticipa com um valor fixo por utente de 17,91 euros. À Segurança Social cabem os restantes 29,19 euros, valor repartido pelo utente, dependendo dos seus rendimentos. Há ainda um montante de 10 euros por utente de longa duração, para cobrir os gastos com fármacos, pensos e apósitos (material complementar aos pensos), e simples exames auxiliares de diagnóstico, como análises clínicas. Um valor demasiado baixo para curar as maleitas dos que ali chegam. “Há pomadas que custam mais que isso”.
Na sala de convívio, D. Arminda mostra-se bem disposta. Esboça um sorriso desdentado quando diz que saiu da sua casa de Torres Novas directamente para ali. É a utente mais velha, tem 88 anos, mas parece bem mais nova que a sua colega de mesa, uma idosa que passa o tempo a enrolar e a esticar a toalha de xadrez. “Sofre de Alzheimer, coitada”.
