Arquivo: Edição de 20-03-2008
SociedadeCerca de 60 mil licenciados não conseguem emprego na área em que estudaram
Muitos jovens “doutores” ganham a vida a vender roupa ou a tirar bicas
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Isabel Godinho, 46 anos, natural de Mação, viu a sua vida adiada ano após ano e hoje não acredita mais. Formou-se em Antropologia há 20 anos no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas em Lisboa e está desempregada. Ainda deu aulas de geografia e história alguns anos, a maioria das vezes em horários incompletos e pouco recompensadores relativamente às despesas que tinha com transportes e residência, mas depressa percebeu que o panorama do mercado de trabalho na sua área não estava fácil. Pela sua cabeça passaram as mesmas ideias de um qualquer recém-licenciado dos dias de hoje após alguns meses a procurar emprego e de dezenas de currículos enviados. Tirar outro curso? Investir em pós-graduações? Emigrar? Tentar uma coisa qualquer? Ou simplesmente desistir?
A grande maioria dos funcionários das lojas do W Shopping, em Santarém, é licenciada ou está prestes a acabar um curso superior. Sílvia Bouça, 26 anos, é licenciada em Marketing e Publicidade. Trabalhava até há algumas semanas numa loja de pronto-a-vestir. Não está desempregada, mas também não está a desempenhar funções na área. Com o canudo na mão desde Setembro de 2007, procurar trabalho noutras áreas para as quais só é pedido o 12º ano é uma opção para deixar de pedir dinheiro aos pais. “Assim sempre consigo ganhar algum dinheiro para suportar as minhas despesas. É melhor do que estar em casa”, confessa a jovem, que chegou a acumular dois trabalhos para aumentar os seus rendimentos e se tornar independente.
“Desde que terminei o curso estive na Salsa, Phone House (loja de telecomunicações), fiz telemarketing para a Novis, desempenhei funções de cliente mistério. Já pensei em abrir um negócio próprio. Há negócios que rendem. E até pensei sair de Portugal”, desabafa Sílvia Bouça. Concorre quase sempre a ofertas fora da sua área admitindo que até se esquece que tem um curso. Com um vencimento pouco acima do salário mínimo nacional, não se sente desmotivada. “Não tenho problemas em trabalhar. Na minha opinião trabalho não falta, falta é vontade”.
São milhares os diplomados que todos os anos as universidades portugueses deitam no mercado de trabalho. Segundo dados publicados pelo INE (Instituto Nacional de Estatística), “o número de diplomados por ano quase que duplicou entre 1997/8 e 2005/06, quando atingiu os 71.828 licenciados”.
Miguel Machado, de Tomar, fará parte das estatísticas de licenciados formados em 2007/08. Obteve a licenciatura em Engenharia Mecânica há sensivelmente dois meses e tem esperanças de conseguir rapidamente um trabalho na sua área. Apesar da escassez de ofertas de emprego qualificado para jovens licenciados, Miguel está certo de que o curso lhe irá dar outro nível de vida. “Tenho esperança de que isto vai correr bem, o difícil é começar. Em todas as entrevistas de trabalho a que fui pediam mais de 5 anos de experiência e fluência em duas a três línguas estrangeiras e isso é que dificulta”, conta-nos.
Trabalhou como vigilante durante cinco anos ao mesmo tempo que ia tirando o curso. Com o curso finalizado, rescindiu contrato por mútuo acordo com a empresa onde trabalhava e dá um prazo de seis meses para se empregar na área. “Para já, vou esperar que apareça algo. Enquanto não aparecer, a minha vida está estagnada e aos 33 anos uma pessoa começa a sentir-se desmotivada se não estabilizar. Depois desse prazo, vale tudo”, conclui. Talvez por ter decidido tirar um curso numa idade já adulta, sente que optou pela área certa, diferentemente da maioria dos jovens que tiram cursos sem pensar no que os espera.
Dina Vitória, 22 anos, terminou o curso de educadora de infância na Escola Superior de Educação de Santarém em Junho de 2007 e desde essa data que tem enviado currículos para ofertas de trabalho de norte a sul do país. Foi a algumas entrevistas mas sem sucesso. Enquanto o telefone não toca com alguma “boa novidade”, Dina Vitória ocupa o seu dia a “ganhar uns trocos” ao balcão do café da aldeia onde vive, em Queixoperra (Mação).
