Arquivo: Edição de 17-01-2008
EntrevistaAntónio Marques Varela esteve na falência e hoje é líder de um grande grupo de construção e investimentos imobiliários
“O nosso país está cheio de burocracia e sistemas anti-evolução”
Não tem grandes investimentos no concelho de onde é natural. A Chamusca não é apetecível?
É um concelho interessante por ter uma área muito grande. Mas, por outro lado, para a minha actividade imobiliária não tinha expressão. Fixei-me ainda durante dois anos na Chamusca, criei uma empresa de construção que desenvolveu várias empreitadas na localidade e nos concelhos em redor. Mas é uma zona muito rural para o desenvolvimento de actividades que precisem de suporte de continuidade.
Quando saiu da Chamusca apostou em Almeirim. Mas acabou por ficar na falência e deixou várias obras por concluir. O que aconteceu?
Estava numa fase de crescimento que coincidia com um ciclo negativo da economia nacional. Os meus clientes, que eram as câmaras municipais, e o Estado não tinham dinheiro. Atrasavam-se nos pagamentos.
Saiu de Almeirim com uma má imagem
É a imagem de alguém que abandona um sonho.
Ficou abalado?
Psicologicamente não fiquei no melhor estado, porque sou consciente e quem não consegue assumir os seus compromissos fica sempre demolido. Depois fui arrumando esse passado, que é bem incómodo para quem tem vontade de fazer com que as coisas aconteçam pela positiva.
Diz-se que pensou em suicidar-se nesse momento difícil…
Não! Isso são boatos próprios dos meios pequenos.
Durante algum tempo não se ouviu falar no seu nome e de repente aparece com o estatuto de empresário importante. Grande reviravolta…
Comecei de novo do zero, mas em Lisboa. Fui avaliando alguns erros que teria cometido, juntando a experiência dos anos vividos, apesar de ser muito novo na altura. Recuperei a vontade de fazer coisas e o crédito.
A parceria que fez com o grupo Espírito Santo contribuiu para que pudesse dar o salto?
Foi apenas um banco que apareceu no caminho acidentalmente. Desenvolvi negócios que tinham como destino os fundos de investimento imobiliário que essa instituição financeira administrava. O Espírito Santo comprava os activos a quem os tivesse. E eu era um fornecedor de centros de distribuição logística que construía e para os quais arranjava os inquilinos. Depois fazia e ainda hoje faço, em Portugal e no estrangeiro, a venda a esses fundos.
Porquê a aposta em centros logísticos?
Há 12 anos começou a surgir a necessidade desses espaços em Portugal com o aparecimento dos grandes operadores logísticos nacionais e internacionais. O país estava a zero neste tipo de infra-estruturas e foi o momento certo. É uma questão de estar atento e identificar as oportunidades.
Comprou muitos terrenos a baixo preço que não tinham qualquer aptidão e que depois foram muito valorizados. Isso é especulação…
O especulador é alguém que compra determinado bem que depois o vai vender pelo melhor preço que conseguir sem acrescentar qualquer valor patrimonial. E existem muitos. O que faço não tem nada a ver com especulação imobiliária. Não sou vendedor de terrenos. Os espaços que comprei estavam destinados nos planos directores municipais à indústria, comércio ou habitação e se vender um lote já desenvolvi todo o processo de legalização e infra-estruturação.
Mas tem alguns terrenos inseridos em Reserva Agrícola e Ecológica.
Esses comprei-os como qualquer cidadão o pode fazer. E quando um dia as entidades que controlam o território definirem que aquele local pode ter uma utilização irei mandar fazer projectos, fazer as infra-estruturas e construir os edifícios.
Se os comprou é porque tinha informações que um dia vai poder construir…
Se um empresário não tiver visão de futuro jamais será empresário.
Há tempos confessou dar-se bem com os autarcas, como por exemplo os de Vila Franca de Xira e Azambuja. Essas amizades ajudam-no a ter essa visão?
Qualquer cidadão, se estudar os planos directores municipais e a forma de evolução da economia em determinadas zonas, vai poder ter uma percepção do que pode vir a acontecer. Daí ter investido em terrenos que considero importantes desde o Algarve a Vila Nova de Gaia. E estamos a falar de muitos autarcas.
Mas um grande empresário tem mais facilidade em conseguir que os autarcas façam o que ele quer…
Não. O nosso país está cheio de burocracia e sistemas anti-evolução. Compramos terrenos em áreas que já estão definidas para construção e andamos muitos anos a desenvolver projectos e a fazer pressão para que as coisas aconteçam de acordo com a lei. Mas fazer com que essa lei seja cumprida é algo muito penoso neste país.
Como é que consegue manter equipamentos que estão sem funcionar há vários anos, como é o caso do Lezíria Retail Park em Almeirim?
Esse foi um projecto bem feito mas ficou concluído fora do ciclo económico favorável. Está a dar prejuízo mas há-de haver o momento para a recuperação.
A sua imagem também ficou muito afectada quando o seu avião particular, que decidiu alugar a uma empresa de aviação, foi confiscado pelas autoridades da Venezuela por ter droga no seu interior.
Isso até me deu notoriedade. Nada tive a ver com o assunto e perdi um avião. Hei-de vir a ser ressarcido no âmbito de um processo em tribunal contra a companhia de seguros.
Não pode viajar através das companhias aéreas?
Tive que comprar outro avião porque tenho que viajar muito e com eficiência e tenho que estar apto fisicamente para desenvolver negócios em várias partes do Mundo.
Comprou uma ilha no Tejo, o mouchão do lombo do Tejo. A ideia era transformá-lo num empreendimento turístico?
Adquiri o terreno por uma questão de afinidade com o mundo rural. Tenho cuidado e valorizado aquele espaço fantástico, se calhar sem a compreensão de pessoas que desconhecem a realidade.
Essa incompreensão tem alguma coisa a ver com o facto de ter no local construções que não estão licenciadas?
Isso é especulação de pessoas que acham que o mundo deve ficar ao natural, que os diques devem cair e que os mouchões podem desaparecer.
As associações ambientalistas continuam a afirmar que há construções ilegais
São mentirosos. Eles não sabem rigorosamente nada do que se passa. Levo lá toda a gente que queira visitar o espaço porque não há nada de ilegal.
Chegam-lhe comentários desagradáveis?
Às vezes ouço coisas que preferia não ouvir. Quase sempre são comentários associados à inveja, que não é só dos portugueses. Dizem que ninguém pode enriquecer sem roubar ou sem ter negócios escuros.
É raro dar entrevistas, tenta ser discreto. É uma estratégia?
É uma questão de temperamento. Há pessoas que gostam de ser fotografadas e de aparecer em todo o lado. A exposição traz benefícios e malefícios. Sou uma pessoa reservada.
Quem anda de avião privado, de helicóptero e carros de luxo não passa despercebido.
Durante muitos anos fiz tudo isso e ninguém se apercebeu. Foi preciso acontecer aquele estúpido incidente do avião apreendido para toda a gente se aperceber. Nunca senti necessidade de mostrar às pessoas o que tenho. Só tenho necessidade de cumprir as minhas obrigações fiscais e sociais de forma correcta. Não preciso do Jet Set para alimentar o meu ego.
