Arquivo: Edição de 13-12-2007
Cultura e LazerA poesia é uma arma
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Fernando Pinto do Amaral e Vitor Viçoso leram muitos poemas de Sidónio Muralha, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira e Arquimedes da Silva Santos, entre outros poetas, para ilustrarem a força das palavras numa altura em que o país vivia uma ditadura política.
Para os oradores muitas das lutas destes escritores militantes ainda hoje são actuais. “A nossa sociedade continua a sofrer das mesmas injustiças de há meio século, só que agora as coisas são mais refinadas”, disseram.
Também nos temas preferidos dos autores neo-realistas é possível encontrar em alguns a crítica social que, embora não dirigida aos poderes vigentes, retrata situações que podem ser consideradas actuais. Este poema de Manuel da Fonseca é um bom exemplo:
Coro dos empregados
da Câmara
É tão vazia a nossa vida,
é tão inútil a nossa vida
que a gente veste de escuro
como se andasse de luto.
Ao menos se alguém morresse
e esse alguém fosse um de nós
e esse um de nós fosse eu...
... O Sol andando lá fora,
fazendo lume nos vidros,
chegando carros ao largo
com gente que vem de fora
(quem será que vem de fora?)
e a gente praqui fechados
na penumbra das paredes,
curvadas pràs secretárias
fazendo letra bonita.
Fazendo letra bonita
e o vento andando lá fora
rumorejando nas árvores,
levando nuvens pelo céu,
trazendo um grito da rua
(quem seria que gritou?)
e a gente praqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados pràs secretárias
fazendo letra bonita,
enchendo impressos, impressos,
livros, livros, folhas soltas,
carimbando, pondo selos,
bocejando, bocejando, bocejando.
