Arquivo: Edição de 18-04-2007
SociedadeMais de trezentos antigos funcionários da fábrica reunidos num convívio cheio de memórias
Lágrimas e abraços apertados no reencontro dos trabalhadores da Mague em Alverca
|
Os antigos funcionários lamentam a morte de uma empresa pioneira na metalomecânica e que chegou a empregar 3500 pessoas. No seu lugar foi construída a Urbanização Malva Rosa em Alverca e as memórias da Mague foram apagadas.
|
A história que liga Henrique Santos à Mague começou ainda antes do nascimento da própria empresa. Em 1951, Henrique Santos trabalhou na construção das instalações da empresa de construções metalomecânicas onde acabou por ficar a trabalhar como electricista até 1990. Quase 40 anos de trabalho que Henrique Santos recorda ainda hoje com grande emoção. “Estive para fazer uns versos para trazer aqui hoje mas depois comecei a chorar e não fui capaz”, confessa o ex-funcionário, emocionado. As palavras de Henrique Santos espelham o sentimento dos mais de trezentos funcionários da Mague que se reencontraram, cerca de dez anos depois do fecho da empresa, num almoço de convívio, no passado sábado, em Adanaia, Vila Franca de Xira. “É uma alegria imensa estarmos hoje aqui todos juntos outra vez, nós que lidámos tanto uns com os outros”, confidencia o ex-electricista.
Quem também chegou cedo à Mague e guarda ainda muitas recordações dos vários anos que lá passou foi José Francisco Lopes. Apesar da idade, a memória não o atraiçoa. “Entrei a 10 de Novembro de 1952 e a electricidade só foi ligada a 1 de Dezembro, num sábado”, recorda. “Saí da Mague em 1988. Estive lá 36 anos e 20 dias”, acrescenta, com uma vivacidade de fazer inveja. José Francisco Lopes foi serralheiro de tubos na Mague durante uma vida inteira e por isso mesmo não esconde a “grande emoção” de voltar a ver caras que já não via há quase 20 anos.
Para onde quer que se olhe, há abraços e cumprimentos efusivos entre amigos e colegas que já se julgavam perdidos. Fernando Moreira foi um dos responsáveis pela organização do convívio. O ex-funcionário dedicou 31 anos à empresa e afirma que a pior recordação que tem na vida é o fim da Mague. Agora trabalha nos SMAS, na delegação da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira em Alverca mas não esquece as três décadas que passou na empresa. “Éramos uma empresa de topo, é pena que tenha sido encerrada para dar lugar a uma urbanização”, lamenta. Desde o encerramento da empresa que as várias secções têm o hábito de se reunir em almoços mas nunca se tinham juntado tantos funcionários num convívio, uma ideia em que Fernando Moreira andou a trabalhar desde Janeiro.
Este almoço fez com que o engenheiro Silva Pinto, ex-administrador da Mague, recordasse o “ambiente excepcional” e as “grandes realizações” da empresa. “Costumo dizer que a Mague foi a grande aventura da minha vida”, afirma o engenheiro de 77 anos que esteve 40 anos ligado à empresa. A Mague projectou e construiu guindastes, gruas e pontes rolantes que ainda hoje podem ser encontradas um pouco por todo o mundo. O fim da empresa chegou com a venda dos capitais que pertenciam as famílias Vaz Guedes e Moniz da Maia ao grupo suíço/sueco ABB.
Quem também não faltou a este reencontro foi o último director de pessoal, Carlos Neves. “Fiquei muito satisfeito por ver aqui um núcleo tão numeroso de pessoas”, refere o ex-responsável pela empresa que, nos seus tempos áureos, chegou a ter cerca de 3500 trabalhadores no quadro. “Aquilo a que na altura chamávamos “família Mague” afinal existe mesmo”, afirma Carlos Neves, com satisfação.
A primeira mulher
a entrar na empresa
Enquanto a comida não chega, tiram-se fotografias e trocam-se números de telefone para garantir que o convívio se prolongará para lá deste almoço. Maria Amélia Casquilho vai cumprimentando os antigos colegas de trabalho que já não via há anos. Foi a primeira mulher a entrar na Mague e das últimas a sair. “Tinha 20 anos quando entrei para a Mague e trabalhei lá até me reformar”, diz a ex-funcionária, agora com 79 anos de idade. Maria Amélia trabalhava na secção financeira, num tempo em que ainda não se usavam computadores mas sim as velhinhas máquinas de escrever. Desse tempo, a ex-funcionária recorda sobretudo a camaradagem que existia entre todos. “Nunca senti diferença por ser mulher”, afirma. Perto de Maria Amélia Casquilho está Joaquim Robalo, o engenheiro que impulsionou também a componente social e desportiva da empresa, com a criação do clube “Centro do Pessoal da Mague”. Joaquim Robalo trabalhou na Mague durante 20 anos, de 1973 a 1993, tendo saído porque, segundo o próprio, começou a sentir “que a empresa estava a entrar em declínio”. Desses anos recorda sobretudo o projecto desportivo da empresa. “O clube era o produto dos trabalhadores todos”, lembra, frisando que, em seu entender, esse aspecto social das empresas já não existe nos dias de hoje. Futebol, atletismo, pesca desportiva, ginástica e outras actividades dinamizavam o clube dos funcionários da Mague. Para além do desporto, havia também actividades culturais como sessões de cinema, clube de vídeo e um núcleo de fotografia. Para Joaquim Robalo, “o clube fomentava a camaradagem que hoje se vê aqui”. Para o engenheiro, esta é uma manhã de nostalgia. “Era uma empresa que tinha condições de funcionamento acima da média, que tinha um know-how próprio”, lamenta o engenheiro.
Foram muitos os episódios recordados na tarde do passado sábado pelas mais de trezentas pessoas que trabalharam na Mague. Ainda não tinha sido servida a refeição e já estava prometido o próximo reencontro. Se tudo correr bem, acontecerá a 29 de Março de 2008.
