Arquivo: Edição de 28-03-2007
SociedadeCentenas de jovens convivem na Quinta da Piedade
Um festival bacano para malta fixe com um ar irreverente
|
O Festival da Juventude de Vila Franca de Xira concentrou centenas de jovens, alguns verdadeiros artistas na arte de grafitar ou nos malabarismos sobre o skate. Uma nova onda invadiu a Quinta da Piedade na Póvoa de Santa Iria.
|
As calças são largas, os cabelos despenteados e os ténis são os da moda, aos quadrados. Até o modo de andar é diferente. Usam-se óculos de sol demasiado grandes e rasgões na roupa. Tudo como forma de auto-afirmação, de expressão de uma atitude jovem. As palavras que dizem são apenas reconhecidas por alguns, os amigos da mesma idade. A isto se chama ser “fixe”. A Quinta Municipal da Piedade, na Póvoa de Santa Iria, encheu-se de centenas de jovens que participaram na primeira edição do Festival da Juventude “Para quem tem atitude”, organizado pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. O evento prolongou-se durante todo o fim-de-semana e traduziu-se em dezenas de actividades diferentes que atraíram jovens de vários pontos do país.
De um lado do Palácio, uma Feira de Artesanato e um acampamento escutista entretinham aqueles que por ali se passeavam. As emissões das rádios-escola ecoavam pela quinta, como banda sonora de um fim-de-semana dedicado aos mais jovens. Junto ao Polidesportivo, concentravam-se as actividades mais radicais. Talvez os nomes “Open de Skate” e “Meeting de Graffiti” digam pouco a algumas pessoas mas foram estes os dois eventos que mais jovens atraíram à quinta municipal, no passado sábado.
Tiago Gomes tem 19 anos e desde os 12 que está habituado a equilibrar-se na prancha do skate. Quando recebeu um email a falar-lhe do festival, não hesitou em juntar um grupo de amigos e viajar das Caldas da Rainha à Póvoa de Santa Iria para participarem no campeonato de skate. Para Tiago, este é um desporto que começa a ser cada vez mais visto pelas autarquias e instituições. “Cada vez estão a apostar mais nos skate parks e isso é muito bom”, diz. Tal como Tiago, também Pedro Gomes elegeu a quinta municipal para passar a sua tarde de sábado sobre rodas. Pedro tem 26 anos e veio de Lisboa, onde soube da iniciativa através do Radical Skate Club. “Este festival está com muito bom ambiente. O skate começa a ser mais bem visto e é graças a iniciativas como esta”, congratula-se o desportista.
Grafitar não é estragar
Ao mesmo tempo que se assistiam a truques acrobáticos nos skates, decorria, mesmo ao lado, o meeting de Graffiti, que convidou cerca de 15 jovens a “graffitarem” telas durante toda a tarde. Hugo Borges, 26 anos, foi um dos responsáveis pela organização do encontro. Para Hugo Borges, apesar de em Vila Franca de Xira se viver ainda uma realidade muito diferente da de concelhos como Lisboa ou Almada, a aceitação do Graffiti enquanto forma de arte é cada vez maior, embora seja ainda visto como algo de marginal. A falta de estruturas para os graffitis no concelho é também um obstáculo e é uma das chamadas de atenção que Hugo Borges faz ao pelouro da juventude da autarquia.
João Carvalho começa a espalhar o spray pela tela sem ter uma ideia definida do que vai fazer. Sabe que prefere desenhar letras e por isso é provável que seja esse o resultado do seu trabalho. Aos 15 anos, João dedica os fins-de-semana a pintar muros abandonados, em conjunto com um grupo de amigos. Os pais não encaram muito bem o passatempo do filho até porque, entre outros motivos, cada lata de spray ronda os três euros e João gasta cerca de nove euros por cada graffiti. Para o jovem de Alverca, iniciativas como este festival servem para que os mais inexperientes possam aprender com os mais velhos. “Às vezes somos um bocado postos de lado”, lamenta João Carvalho, que aproveita este festival para observar técnicas de quem já faz graffiti há mais anos.
É o caso de Tiago Carvalho, de 18 anos, que começou a fazer graffitis há seis anos atrás. Tiago leva a sua arte muito a sério, chegando mesmo a dedicar semanas a um mesmo graffiti. Em relação ao custo deste seu passatempo, o jovem alverquense considera que é “acessível, desde que se saiba abdicar de outras coisas”. Para Tiago, é urgente que o graffiti deixe de ser associado à delinquência. “Somos pessoas como as outras só que gostamos de pintar”, diz. Quem também não faltou à chamada para este encontro de “graffiters” foi João Oliveira que, com um grupo de amigos, se reuniram para “graffitar” uma tela diferente. “A minha onda é o grafismo e a street art à base de moldes e posters”, explica o jovem de Vila Franca de Xira. O graffiti de João Oliveira foi feito com recurso a materiais como o stencil, mostrando que o graffiti não se limita à lata de spray despejada para a parede e pode assumir formas de expressão bem mais complexas. O resultado final destes trabalhos vai estar em exposição nas Casas da Juventude do concelho.
