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Arquivo: Edição de 06-12-2006

Sociedade

Moradores em Vialonga temem que os animais ataquem as pessoas, inclusive o dono de 84 anos
Cães em casa inacabada causam problema de saúde pública

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Um homem de 84 anos vive com mais de dezena e meia de cães numa moradia inacabada e sem condições de habitabilidade. Um perigo de saúde pública partilhado pelos vizinhos há uma década.

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Os moradores da Rua do Bom Humor, em Vialonga, têm poucas razões para sorrir. Numa casa inacabada, sem água nem electricidade, um idoso de 84 anos abriga um número incerto de cães causando aquilo a que os vizinhos se referem como um atentado à saúde pública.

O ladrar constante dos cães e o cheiro que invade toda a rua alertam até os mais distraídos para o que ali se passa. Quem ali mora queixa-se também das pulgas que chegam a invadir as casas dos vizinhos. Cláudia Pinheiro, que ali vive há quase uma década, sempre conviveu com a situação. Cansada de enviar cartas e recolher assinaturas, a moradora lamenta que ainda nada tenha sido feito para resolver a situação. “Isto nem é só por nós, é por ele também. Se acontece alguma coisa lá dentro, nos só pelo cheiro não podemos socorrer ninguém, ele ao fim de três dias é comido pelos cães”.

Ninguém sabe ao certo quantos cães estão dentro da casa. “Pelo menos uns dezasseis, fora uma ninhada que desconfiamos que nasceu agora há pouco tempo”, estima Cláudia Pinheiro. O cheiro, que no Verão se torna insuportável, e o barulho sistemático nem são, para a moradora o principal problema. “O pior é a falta de higiene. Ele sai de casa e limpa os pés ao passeio”, diz a moradora. “No Verão houve uma desinfestação porque isto foi uma coisa como eu nunca vi, viam-se as pulgas na rua”, acrescenta.

Para além dos problemas causados pelos animais, os moradores queixam-se de más relações de vizinhança com o octogenário. Uma vizinha, que não quis dar o nome por receio de sofrer consequências, afirma que o idoso já várias vezes ameaçou de morte o seu marido e outros vizinhos e que já feriu o marido na cara. “Está toda a gente com medo. Eu não posso ter mais razão de queixa do que a que tenho. Ele não é bom para ninguém. Agora tem oitenta anos mas já teve setenta, cinquenta e quarenta e sempre foi mau. Eu já cá estou há mais de quarenta anos e sempre foi assim”, queixa-se a moradora.

No café perto da rua, o assunto domina as conversas. Um outro morador que não quer identificar-se conta que “há dez anos ele deu cabo aqui de um carro, foi para tribunal e o tribunal mandou-o pagar mas ele até hoje não pagou nada”. “Ele tem cadastro e muitos problemas com as autoridades”, acrescenta.

A Junta de Freguesia de Vialonga já há muito tempo que sabe o que se passa na Rua do Bom Humor. “É um processo já com barbas”, diz o presidente da Junta, Manuel Valente. “O senhor que ali vive tem 84 anos e sempre teve cães. Ele não percebe porque é que os vizinhos embirram com os cães”, explica o presidente. O certo é que, com ou sem queixas dos vizinhos, a casa, que o idoso nunca chegou a acabar, não tem condições para albergar nem o morador nem os animais. Manuel Valente pediu a intervenção da Delegada de Saúde de Vila Franca de Xira “para que sejam feitas diligências para tirar dali os cães”.

A Delegada de Saúde de Vila Franca de Xira, Túlia Quinto, disse a O Mirante que está “a tentar encaminhar a situação”, cuja solução terá que passar pelo Veterinário Municipal. Túlia Quinto afirma só há poucas semanas ter tido conhecimento da situação e acrescenta que a queixa por escrito só foi enviada no dia 28 de Novembro. “Estive lá no dia 27 e só nessa altura fiquei a saber que tinha havido também um telefonema no Verão, por causa das pulgas”, acrescenta a médica. Para a delegada de saúde, esta não é uma situação fácil porque, para além do problema de saúde animal, há também o problema do idoso que “não tem condições de habitabilidade”.

O presidente da junta confessa-se preocupado com o que possa acontecer ao idoso quando ficar sem os cães: “Os amigos dele são os cães. Espero que ele não morra por causa disto”. O MIRANTE tentou, sem sucesso, falar com o octogenário que se manteve fechado dentro de casa.

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